Kraken (fotolivro) é a catalogação de um território através do olhar. Fruto de uma vivência etnográfica urbana que durou dois anos como supervisora operacional e militante social dentro da Cozinha Ocupação 9 de Julho, gerida pelo MSTC, no Anhangabaú, Centro de São Paulo, as fotografias ora ambientam - ora denunciam - a materialidade de uma fronteira, relatando a experiência ambivalente de alteridade que constitui uma ocupação por moradia e em específico uma cozinha comunitária de guerrilha. O título sugere um testemunho de quem sobreviveu ao cefalópode mitológico. Fome, fartura, fraternidade, violência, horizontalidade, poder, acesso, restrição, encanto, horror, doce, amargo, fresco e podre são temas que permeiam as 1.500 fotografias feitas, que carregam consigo a força do exercício de habitar ruínas, uma experiência visceral para além do óbvio. O fotolivro inaugura um ponto de vista inédito de dentro e de perto, e se constrói a partir de uma práxis de cunho fenomenológico em um microcosmo pouco conhecido, pelo mundo que adentra a boca, não por meio de uma interpretação discursiva. A pesquisa visual dita uma gramática estética e política de gestos, espaços, objetos e relações que ilustra a complexidade do que Frantz Fanon (1925-1961) descreveu como “essa vontade firme de levar os últimos para o início da fila”, sendo, em última análise, o registro de uma revolução decolonial feita às margens: seu organismo, epistemologia e pulsão.

Kraken (photobook) is an exercise of mapping a territory through the gaze. Source of a two-year urban ethnographic experience—working as event supervisor and activist at the Cozinha Ocupação 9 de Julho, managed by MSTC in downtown Sao Paulo—the photographs alternately set the scene and exposes the materiality of a boundary. They recount the ambivalent experience of otherness that defines a urban housing occupation—and, specifically a solidarity community kitchen. The title of the photobook suggests the testimony of a survivor who has lived through the encounter with the mythological cephalopod. Hunger, abundance, fraternity, violence, horizontality, power, access, restriction, enchantment, horror, sweetness, bitterness, freshness and rotten are themes presents among the 1,500 photographs taken. These images carry the power of the act of inhabiting ruins—a visceral experience that transcends the obvious. The photobook introduces a uncharted perspective from the inside and up close, built upon a phenomenological praxis within a little-known political microcosm, through the world that enters the mouth rather than a discursive interpretation. The visual research establishes an aesthetic and political grammar of gestures, spaces, objects, and relationships, which illustrate the complexity of what Frantz Fanon (1925–1961) described as "that firm will to move the last to the front of the line"—ultimately serving as a document of a decolonial revolution taking place on the margins: its organism, epistemology and drive.